E o outro post de hoje é para celebrar o talento de Lilly, uma grande fã da série outlander da Diana Gabaldon. O desenho abaixo reproduz o casamento de Jamie e Clare (série Outlander – Diana Gabaldon).

A passagem do casamento é uma das mais memoráveis do livro
A viajante do tempo e vê-la expressa com tanto apuro no desenho acima, fez com que eu me transportasse de novo para aquele momento quando li a referida passagem pela primeira vez. Quem disse que não podemos viajar no tempo? Sim, foi uma viagem de retorno e resgate da narrativa e da mesma sensação de encantamento que sentir ao acompanhar o casamento inusitado e, ao mesmo tempo, belo de Jamie e Clare.
O desenho da Lilly demonstra que existem várias maneiras de se contar uma mesma história. Isto é, uma narrativa bem contada transcende o próprio campo literário e passa a nos pertencer a medida que nos deleita e nos comove. E o resultado se traduz naquilo que nossa imaginação é capaz de criar a partir da obra lida. Desse modo, o desenho da Lilly é a mais bela homenagem que gostaria de ser capaz de fazer também. Salve Lilly, parabéns por realizar um trabalho tão mais eloquente do que qualquer palavra.
Saca só o detalhe do lenço manchado de sangue remetendo ao voto de casamento que ambos fizeram: “Você é sangue do meu sangue e ossos dos meus ossos. Dou-lhe meu corpo, para que nós dois sejamos um só. Dou-lhe meu espírito, até o fim de nossas vidas”.
E o tartan que deu um trabalhão para ser feito, não é, Lilly? Trabalhão esse que se revelou um esforço recompensador cujo resultado extrema a sua delicadeza e sensibilidade aos detalhes. Lindo! Lindo! Parabéns.
Agradeço a Lilly que prontamente atendeu ao meu pedido em que expressei meu desejo de postar o desenho no RG. Aliás, estou ansiosa para ver o que mais virá de suas mãos e cérebro engenhosos.
E quem quiser acompanhar o seu trabalho é só clicar no link: http://lillywmw.livejournal.com/
Para ver a imagem em tamanho ampliado, siga para: http://lillywmw.livejournal.com/60321.html?#cutid2
Para acompanhar o que já escrevi sobre a série no RG clique aqui.

Que tal um resgate do trecho do capítulo “Um casamento é celebrado” – A viajante do tempo (Diana Gabaldon)?
Era um “quente” dia escocês, significando com isso que a névoa não estava suficientemente forte para ser qualificada de garoa, mas não muito longe disso, tampouco. De repente, a porta da estalagem se abriu e o sol surgiu, na pessoa de Jamie. Se eu era uma noiva radiante, o noivo era sem dúvida resplandecente. Fiquei de boca aberta e assim permaneci.
Um escocês das Highlands em roupas de gala é uma visão impressionante – qualquer um, por mais velho, feio ou desgracioso que seja. Um jovem escocês das Highlands, alto, empertigado e de forma alguma desgracioso, visto de perto é de se perder o fôlego.
Os fartos cabelos vermelho-dourados haviam sido escovados até adquirirem um aspecto brilhante e macio que roçava o colarinho de uma elegante camisa de linho fino
com a frente de pregas, mangas em forma de sino, punhos de babados enfeitados de renda, combinando com a cascata de babados e renda do jabô engomado, preso na altura da garganta e ornamentado com um alfinete de rubi.
Seu tartã era de um xadrez vermelho vivo e preto que ofuscava o mais sereno verde e branco dos MacKenzie. A lã flamejante, amarrada por um broche redondo de prata, caía de seu ombro direito num drapejo gracioso, preso por um cinto de espada cravejado de tachas de prata, antes de continuar seu volteio pelas panturrilhas elegantemente recobertas por meias de lã e parando logo acima das botas de couro preto com fivela de prata. Espada, adaga e bolsa de pele de texugo completavam o traje.
Com quase um metro e noventa de altura, de ombros largos e traços marcantes, ele estava longe de se parecer com o sujo domador de cavalos com quem eu estava acostumada – e ele sabia disso.
Com um gesto elegante, fez uma reverência impecável para mim, murmurando “A seu serviço, madame”, os olhos brilhando de malícia.
- Ah! – exclamei, quase desmaiando.
Nunca antes vira o taciturno Dougal embaraçado, sem conseguir encontrar palavras. As sobrancelhas grossas franzidas num rosto afogueado, parecia, a seu modo, tão surpreso quanto eu com essa aparição.
- Está louco, homem? — disse, finalmente. — E se alguém o vir? Jamie arqueou uma sobrancelha sarcasticamente para o homem mais velho.
— Ora, tio — disse. — Insultos? E além do mais no dia do meu casamento? Não ia querer que eu envergonhasse minha mulher, não é? Além disso – acrescentou com um brilho malicioso nos olhos -, acho que o casamento nem seria legítimo se eu não me casasse no meu próprio nome. E você quer que seja, não é?
Com um evidente esforço, Dougal recuperou seu autocontrole.
— Se já terminou, Jamie, podemos continuar – disse.
Mas Jamie ainda não havia terminado, ao que parecia. Ignorando a fúria de Dougal, retirou um colar de contas brancas de sua bolsa. Deu um passo à frente e fechou o colar em volta do meu pescoço. Olhando para baixo, pude ver que era um colar de pequenas pérolas barrocas, aquelas contas de forma irregular que são produto de moluscos de água doce, entremeadas com minúsculas contas de ouro. Pérolas menores pendiam das contas de ouro.
- São apenas pérolas escocesas – disse, desculpando-se -, mas ficam lindas em você. – Seus dedos demoraram-se um pouco no meu pescoço.
— Essas pérolas eram de sua mãe! — disse Dougal, olhando para as pérolas com ar ameaçador.
- Sim – disse Jamie calmamente. – E agora são de minha mulher. Podemos ir?
Onde quer que estivéssemos indo, ficava a alguma distância da vila. Formávamos um grupo de casamento um tanto carrancudo, o casal de noivos rodeados pelos demais como condenados que estavam sendo escoltados para alguma prisão distante. A única conversa foi uma desculpa de Jamie, em voz baixa, por ter chegado atrasado, explicando que houve alguma dificuldade em encontrar uma camisa limpa e um casaco grande que coubesse nele.
- Acho que esta pertence ao filho do escudeiro local – disse, agitando o jabô de renda.
- Um pouco almofadinha, me parece.
Desmontamos e deixamos os cavalos no sopé de um pequeno monte. Uma trilha em meio às urzes levava para cima.
- Tomou todas as providências? – ouvi Dougal dizer em voz baixa para Rupert, quando amarravam os animais.
- Ah, sim. – Viu-se um clarão de dentes na barba negra. – Foi um pouco difícil convencer o padre, mas nós lhe mostramos a licença especial- Bateu na bolsa à cintura, que retiniu musicalmente, dando-me uma idéia da natureza da licença especial.
Em meio à garoa e à névoa, avistei a capela projetando-se das urzes. Com uma sensação de completa incredulidade, vi a cúpula arredondada e as estranhas janelas com muitas vidraças pequenas, que eu vira na brilhante manhã ensolarada do meu casamento com Frank Randall.
- Não! — exclamei. — Aqui não! Não posso!
- Shh, vamos, shh. Não se preocupe, dona, não se preocupe. Tudo vai dar certo. -Dougal colocou a mão grande sobre meu ombro, produzindo sons tranqüilizadores em escocês, como se eu fosse um cavalo arisco. – É natural um pouco de nervosismo — disse para todos nós. A outra mão firme na minha cintura instava-me a continuarsubindo a trilha. Meus sapatos afundavam-se na camada úmida de folhas caídas.
Jamie e Dougal caminhavam junto a mim, um de cada lado, para evitar uma fuga. Suas dominantes presenças eram intimidantes e senti uma crescente sensação de histeria. Duzentos anos à frente, mais ou menos, eu me casara naquela capela, encantada na época com sua natureza antiga e pitoresca. A capela agora estava estalando de nova, as tábuas ainda não estavam assentadas com aquele charme que iria adquirir ao longo do tempo, e eu estava prestes a casar com um escocês de vinte e três anos, católico e virgem, com a cabeça a prêmio, cujo…
Virei-me para Jamie, repentinamente em pânico.
- Não posso me casar com você! Eu nem sei seu sobrenome!
Olhou para mim e arqueou uma sobrancelha ruiva.
- Ah. É Fraser. James Alexander Malcolm MacKenzie Fraser. — Pronunciou-o formalmente, cada nome devagar e distintamente.
Completamente perturbada, eu disse, estendendo a mão tolamente.
- Claire Elizabeth Beauchamp.
Aparentemente tomando o gesto como um pedido de apoio, segurou minha mão e enfiou-a firmemente na dobra do seu braço. Assim irremediavelmente presa, continuei caminhando em silêncio para o meu casamento.
Rupert e Murtagh esperavam por nós na capela, montando guarda ao lado do padre prisioneiro, um jovem sacerdote alto e magro, com um nariz vermelho e uma expressão justificadamente aterrorizada. Rupert indolentemente tirava lascas de um raminho de salgueiro com uma faca grande e, embora tivesse posto de lado suas pistolas de cabo de chifre quando entrou na igreja, elas permaneciam ao alcance da mão na beira da pia batismal.
Os outros homens também se desarmaram, como era próprio na casa de Deus, deixando uma pilha de letalidade impressionantemente rutilante no banco da igreja. Somente Jamie conservou sua adaga e sua espada, provavelmente como uma parte cerimonial de seu traje.
Ajoelhamo-nos diante do altar de madeira, Murtagh e Dougal assumiam seus lugares como testemunhas e a cerimônia começou. O formato da cerimônia de casamento católica não mudou muito em várias centenas de anos e as palavras unindo-me ao estranho ruivo a meu lado, eram basicamente as mesmas que haviam consagrado meu casamento com Frank. Sentia-me como uma concha oca e fria.
As palavras balbuciadas pelo jovem padre ecoavam em algum lugar vazio da boca do meu estômago.Levantei-me automaticamente quando chegou a hora dos votos observando numa espécie de entorpecido fascínio meus dedos gelados desaparecerem nas mãos poderosas do meu noivo. Seus dedos estavam tão frios quanto os meus e ocorreu-me pela primeira vez que, apesar da aparência exterior calma, ele devia estar tão nervoso quanto eu.
Até então eu evitara olhar para ele, mas agora ergui os olhos e deparei-me com ele fitando-me intensamente. Seu rosto estava lívido e cuidadosamente impassível; tinha a mesma expressão de quando eu tratara o ferimento em seu ombro. Tentei sorrir-lhe, mas os cantos da minha boca oscilaram precariamente. A pressão dos seus dedos nos meus aumentou. Tive a impressão de que um estava sustentando o outro; se um de nós soltasse a mão ou desviasse os olhos, ambos cairiam. Estranhamente, a sensação era reconfortante.
Onde quer que estivéssemos nos metendo, ao menos estávamos juntos nisso.
— Eu a aceito, Claire, como minha esposa… — Sua voz não tremia, mas sua mão sim.
Segurei seus dedos com mais força. Nossos dedos rígidos apertavam-se como tábuas num torno de bancada. -…amar, honrar e proteger… nos bons e nos maus
momentos… – As palavras vinham de longe. O sangue esvaía-se da minha cabeça. O corpete com barbatanas era infernalmente justo e, embora eu sentisse frio, o suor escorria pelo meu corpo por baixo do cetim. Esperava não desmaiar.
Havia uma pequena janela de vitral bem alta na parede ao lado do santuário, uma representação rústica de São João Batista com sua capa de pele de urso. Sombras verdes e azuis flutuavam sobre a manga do meu vestido, fazendo-me lembrar do salão da taberna e desejei um drinque fervorosamente. Minha vez. Gaguejei um
pouco, o que me deixou furiosa.
- Eu o recebo, James… – Empertiguei-me. Jamie terminara a sua parte com bastante credibilidade. Eu poderia tentar fazer o mesmo. -…para amar e proteger, de hoje em diante… – Minha voz fortaleceu-se.- Até que a morte nos separe. – As palavras ressoaram na capela silenciosa com um caráter surpreendentemente definitivo. Tudo estava imóvel, como uma imagem congelada. Então, o sacerdote pediu a aliança.
Houve uma agitação repentina e, de relance, vi a expressão arrasada no rosto de Murtagh. Mal registrei o fato de que alguém se esquecera de providenciar um anel, quando Jamie soltou minha mão o tempo suficiente para retirar um anel do próprio dedo.
Eu ainda usava a aliança de Frank na mão esquerda. Os dedos da mão direita pareciam congelados, descorados e rígidos na mancha de luz azul, quando um largo aro de metal passou pelo meu dedo anular. Ficou solto no dedo e teria caído se Jamie não dobrasse meus dedos e envolvesse minha mão fechada outra vez na sua.
Mais murmúrios do padre e Jamie inclinou-se para beijar-me. Era óbvio que ele pretendia apenas um breve e formal toque de lábios, mas sua boca era macia e quente e eu instintivamente me aproximei e correspondi Percebi vagamente alguns ruídos, gritos escoceses de entusiasmo e incentivo da platéia, mas na verdade não notei nada além da envolvente e cálida solidez dos seus lábios.
Separamo-nos, ambos um pouco mais serenos, e sorri nervosamente. Vi Dougal tirar a adaga de Jamie da bainha e perguntei-me qual seria a razão. Ainda olhando para mim, Jamie estendeu a mão direita, palma para cima. Prendi o ar de repente quando a ponta da adaga fez um corte profundo em seu pulso, deixando uma linha escura do sangue que aflorava. Não houve tempo de recuar antes que a minha própria mão fosse agarrada e eu sentisse o corte ardente da lâmina. Rapidamente, Dougal pressionou meu pulso ao de Jamie e enfaixou-os juntos com uma tira de linho branco.Devo ter cambaleado um pouco, porque Jamie segurou-me pelo braço com a mão esquerda livre.
- Agüente firme – disse baixinho. – Falta pouco agora. Repita as palavras depois de mim. — Era um pequeno texto em gaélico, duas ou três frases. As palavras não significavam nada para mim, mas as repeti obedientemente depois de Jamie, tropeçando nas vogais escorregadias. A tira de linho foi desamarrada, os cortes enxugados e limpos, e estávamos casados.
Havia uma sensação geral de alívio e satisfação no caminho de volta pela trilha. Parecia uma alegre festa de casamento qualquer, apesar de pequena, e composta inteiramente de homens, à exceção da noiva. Estávamos quase ao sopé da colina, quando a falta de comida, os remanescentes de uma ressaca e o estresse geral do dia me venceram. Deitei-me nas folhas úmidas, a cabeça no colo do meu novo marido. Ele colocou de lado o pano úmido com que estivera limpando meu rosto.
- Foi tão ruim assim? – perguntou rindo para mim, mas seus olhos guardavam uma certa expressão que me sensibilizou, apesar de tudo. Sorri tremulamente em resposta.
- Não é você – afirmei. – É que… acho que não comi nada desde o desjejum de ontem. E receio que tenha bebido muito.
Sua boca contraiu-se.
- Ouvi dizer. Bem, isso eu posso remediar. Não tenho muito a oferecer a uma esposa, como eu disse, mas prometo que vou mantê-la alimentada. – Sorriu e timidamente afastou com o dedo indicador um cacho caído em meu rosto.
Comecei a me sentar e fiz uma careta diante de uma leve queimação no meu pulso. Havia me esquecido dessa última parte da cerimônia. O corte se abrira, sem dúvida em resultado da queda que eu sofrera. Peguei o pano de Jamie e amarrei-o desajeitadamente em volta do pulso.
- Achei que fora isso que a fez desmaiar – disse, observando. – Eu deveria tê-la avisado; não percebi que não estava esperando por isso até ver seu rosto.
- O que era, exatamente? – perguntei, tentando enfiar as pontas por baixo do pano.
- É um pouco pagão, mas é tradição por aqui fazer um voto de sangue, juntamente com a cerimônia normal. Alguns padres não a aceitam mas acho que esse não iria se opor a nada. Parecia tão assustado quanto eu me sentia — disse, sorrindo.
- Um voto de sangue? O que as palavras significavam?
Jamie segurou minha mão direita e delicadamente prendeu a ponta da atadura improvisada.
- Dizem o seguinte:Você é sangue do meu sangue e ossos dos meus ossos. Dou-lhe meu corpo, para que nós dois sejamos um só. Dou-lhe meu espírito, até o fim de nossas vidas. Encolheu os ombros.- Mais ou menos como os votos normais,
apenas um pouco mais… ah, primitivos. Olhei para meu pulso enfaixado.- Sim, acho que se pode dizer isso.
Olhei ao redor; estávamos sozinhos na trilha, sob um álamo. As folhas arredondadas,. mortas, espalhavam-se pelo chão, brilhando na umidade como moedas enferrujadas. Estava muito silencioso, exceto pelo respingo ocasional de gotas d’água caindo das árvores.
- Onde estão os outros? Voltaram para a hospedaria?
Jamie fez uma careta. -Não. Eu mandei que se afastassem para poder cuidar de você, mas estarão esperando por nós logo ali embaixo. — Indicou com um movimento do queixo, à moda de um homem do campo.
- Não vão nos deixar sozinhos até que tudo esteja oficializado.
- É mesmo? — disse, sem compreender. – Estamos casados, não estamos. Ele pareceu constrangido, desviando o rosto e cuidadosamente afastando folhas mortas de seu kilt.
- Hum, hum. Sim, estamos casados, sem dúvida. Mas não está sacramentado, sabe, enquanto não for consumado. – Um rubor lento e intenso subiu de seu jabô de renda.
- Hum, hum – repeti. – Vamos procurar alguma coisa para comer.
Fala Gracinha!