
Lucia tem uma vida monótona e previsível até vencer o concurso mais cobiçado do momento.
Não apenas ganha uma viagem para Londres, como também um jantar com o ator inglês Richard Clevehouse.
O que era sorte, entretanto, muda de cor. Richard, o belo ator de olhar sombrio, guarda um segredo: a vida de Lucia corre perigo. E ele fará de tudo para protegê-la, mesmo que, em troca, tenha de sofrer muito mais do que espera.
Das certezas, apenas uma:
Não há para onde fugir!
Autor: Kamila Denlescki
Editora: Novo Século
Ano de Lançamento: 2009
Número de Páginas: 232
Uhú! Òtimáximo! Adorei Estrela Píer.
O livro é do tipo que se lê em uma sentada. Não porque seja pouco extenso, (realmente a história é curtinha com direito a gostinho de quero mais). Mas não é isso. É muito mais porque a trama introduz-se mansamente a ponto de ensurdecer nossos sentidos para o tique-taque do relógio e outros estímulos estressantes. Sim, meu caro Proust, concordo contigo, “a leitura é a mais nobre das distrações”*. De um jeito gostoso, a trama se encarrega de nos puxar pela mão preparando-nos para os arroubos súbitos de “Ih! E agora? O que virá?”. Enquanto a leitura transcorria no melhor estilo “What have happen to Lucy Píer?”, imergi-me no universo glamoroso que Kamila Denlescki pintou tão habilmente. A história é muito charmosa.
A narrativa é bem estruturada com um pezinho lá nos contos de fadas e nos contos maravilhosos em que a proposta é apresentar um desígnio a ser cumprido pelo protagonista da história, nesse caso, Lúcia Píer. Para cumprir seu destino (que você só saberá lendo), Lúcia precisa sair do seu casulinho e partir em uma viagem inusitada em busca de si mesma, do desconhecido (se o desconhecido tiver um corpão e for sexy, melhor ainda). Quem sabe no ponto de chegada não esteja a tão sonhada felicidade? Antes disso, claro, múltiplos obstáculos marcam presença. Essa estrutura narrativa, ao longo da história da literatura, tem se demonstrado certeira. Não é toa que gêneros do tipo agregam fãs ardorosos em torno de si. Eu sou um deles!
A Kamila tem um raciocínio sofisticado e irônico que marcadamente influencia a sua escrita. O que poderia resvalar em uma arrogância intelectual é competentemente transformado na pedra de toque do livro de onde se origina os diálogos inteligentes e de um humor sutil. Adoro!
Para os melindrosos, o componente glamoroso de que falo não tem nadinha de pomposo. O glamour fica por conta da viagem no tempo rumo à inesquecível Hollywood dos anos 40 e 50. O impressionante é que se trata de história contemporânea, mas o look retrô está o tempo todo ali servindo de pano de fundo para que os nossos James Dean e Rita Hayworth modernos e repaginados na pele de Lucia e Richard nos fascinem com seus desempenhos memoráveis. Um luxo!
Para quem enjoou das mocinhas que choram pelos cantos, Lúcia Pier é digna de palmas. Poderia ser o clichê da nerd recalcada e com baixa auto-estima, mas dribla facilmente esses limites que acabariam por anular as várias possibilidades de Lúcias que tem dentro de si. E no melhor estilo butterfly, a transformação de Lúcia Pier é muito interessante de se ver. Além da mente sarada, temos aí uma mocinha de fibra que não espera que o mocinho a salve dos vilões. A menininha, ela mesma, sem bancar a feminista e sempre feminíssima, bota pra quebrar.
E Richard? Nasceu para ser o anti-herói. Um mau-mau apaixonante e apaixonado. Apesar da fama de vilão, não é um bruto que ama. È um verdadeiro gentleman, mas sem a tal da empáfia estudada. Talvez seja esse um papel mais bem desempenhado por Kim, a outra ponta do triângulo amoroso. Voltando ao Richard, é esse belo espécime de imperfeição heróica que vai até as últimas conseqüências para conquistar o amor de Lucy. Um amor que não estava no script literalmente. Kimdjuvantes de plantão, abram o olho!
A pergunta que não quer calar: os vilões estão com tudo ou mau mocismo cai como luva em nossos heróis?
Aprendi no blog da Steffens que estamos diante de um Mistery Lit. Então, não vou ser a estraga-prazeres por quebrar o pacto. Em se tratando de mistério narrativo, a cada leitor compete desvendá-lo no silêncio de seu santuário de leitura. Além do que não é de bom tom futricar os acontecimentos da trama com quem ainda não a leu. Que fiquem, então, registrados apenas os meus sentimentos sobre a coisa toda.
Recado para a editora Novo Século: Demonstrem cuidado para com seus autores, leitores e livros. Nós agradecemos.
Vou botar Queen no CD Player e ouvir Don’t stop me now nas alturas.
Fui!
*Marcel Proust
Fala Gracinha!