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02

Filha de pais liberais de classe média, Zarah Ghahramani cresceu em um subúrbio de Teerã e foi criada para acreditar que a educação não era um privilégio dos homens; por isso foi encorajada a ler ampla e ambiciosamente. Fascinada por Arash, estudante e ativista político líder de protestos, Zarah ingressa num movimento político estudantil, mas o sonho de liberdade logo se transforma em pesadelo – ela é presa e enviada à penitenciária mais notória de Teerã – Evin. Neste livro, Zarah Ghahramani conta a história de sua aterrorizante tribulação e descreve como a dolorosa experiência a transformou em uma mulher corajosa e determinada. Uma autobiografia poderosa e lindamente escrita sobre a vida em um regime opressor.

Os leitores do RG podem estranhar a indicação do livro Minha vida como traidora uma vez que a perspectiva dos “romances românticos” sempre foi primazia no blog. È mais a cara do Mixcelânia, não é mesmo? No entanto, a proposta-mor do RG é a leitura supressora da distância entre ler e se envolver. Afinal, como é bom aproximar-se de um livro com uma intimidade radical! Os leitores compulsivos hão de concordar comigo. Sendo assim, nada mais natural do que utilizar o espaço do Romance Gracinha para divulgar livros que superam a função de entretenimento para também nos inspirar.

Minha vida como traidora é uma biografia literária, ou melhor, romanceada narrada em primeira pessoa. No livro, Zarah reconstrói os 29 dias passados na Prisão de Evin em Teerã. Dias em que pôde comprovar a face horrenda do terror. È revoltante constatar que Zarah está ali sem ter cometido um crime sequer na vida. O seu maior crime (na visão do opressor) foi lutar em prol da liberdade, lutar contra o opressivo regime teocrático existente no Irã. È interessante ler o livro agora nesse momento histórico em que os olhos do mundo se voltam para o Irã 2.0 em que blogueiros do mundo fazem uso da comunicação instantânea e assíncrona para denunciar as torturas e assassinatos que ocorrem nas prisões iranianas. È estarrecedor concluir que as torturas brancas (isolamento do prisioneiro em uma cela sem janelas e com luz artificial ligada ininterruptamente), os espancamentos e todo tipo de violência de natureza brutal e sombria está acontecendo no exato momento em que escrevo esse post, no exato momento em que você o lê.

Ao contar sua história, Zarah Ghahramani não se arroga ao papel de ativista política e de teórica do assunto, na verdade, em certos momentos o livro sai totalmente da esfera política e vira um romance mesmo. È quando temos acesso às memórias de infância, memórias da juventude e lembranças em família de Zarah. E é aí que nos aproximamos ainda mais da protagonista da história: um ser humano como eu e você. Com anseios, desejos e um mundo das melhores perspectivas futuras a esperá-la. Uma jovem como qualquer outra com desejos naturais de amar e ser amada, com a curiosidade expectante acerca da estranheza e, ao mesmo tempo, do caráter familiar da vida.

Claro que assim como muitos jovens do Irã e do mundo que lêem Lorca e Kafka, Zarah foi influenciada por pensamentos para além das ideologias dogmatizantes. Participava de movimentos estudantis para reivindicar liberdades fundamentais como direito de escolher o que pensar, o que vestir, o que seguir. E o bacana da história é a evidência dada à simbologia da liberdade reproduzida em um simples par de sapatos cor-de-rosa como o da capa do livro. Esses sapatos passaram a representar para Zarah a vida que ela queria viver. Ela o ganhara de seu pai quando tinha 6 anos de idade, “sapatos encantados de uma princesa”. Contudo, não pudera usá-los porque um primo da família morrera na guerra e todos os membros deveriam viver um luto que beirava a neurose; um entre os inúmeros costumes adotados em seu país de forma equivocadamente sufocante. O certo, porém, é que, num átimo, todos os sonhos acerca dos caminhos por onde suas sapatilhas a conduziria, levaram-na a uma cela na prisão de Evin.

Eu fiquei perplexa com a história de Zarah, com os desmandos tiranos com que são feitas as lavagens nas mentes das crianças iranianas ao impor como preceito divino o uso de bobagens como meias pretas e por aí vão os abusos dos domínios dogmatizantes de tal governo.

Porém mais do que perplexa, fiquei inspirada pela mensagem que, contrariamente a circunstância opressiva expressa nas páginas do livro, sobreleva o poder da capacidade humana para o amor, a justiça, a vida e o triunfo mesmo quando tudo parece ser um grande “não” à existência. A força empática de valores e humanidade compartilhada me fez pensar que não existe “eu” e “ela”. Não há divisão entre “nós” e “Eles”. Se todos tivessem consciência disso não precisaria de educação em Direitos humanos para fazer-nos ver que podemos reconhecer nossa própria humanidade no outro.

Tudo isso faz com que final do livro seja uma das redenções mais comoventes que já tive oportunidade de ler até hoje.

Vale a pena conferir o site do livro onde você poderá degustar o primeiro capítulo, saber mais sobre livro e assistir a um documentário sobre a prisão de Evin em Teerã.

http://minhavidacomotraidora.com.br/default.asp

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5 Responses
  1. Vania disse:

    Parece ser uma história impressionante. Gosto muito dessas leituras elucidativas. Valeu, Vivi!

  2. Fernanda disse:

    Boa dica, parece ser um bom livro… gosto de ler meus livrinhos lights, mas é ótimo ler algo mais profundo de vez em quando, e esse livro parece ser uma boa pedida; já marquei na lista! :)

    Beijo…

  3. Débora Lauton disse:

    Quase peguei pra ler esse livro, mas fiquei em dúvida, não tinha certeza se ia gostar… depois de ler seu comentário, não deixarei a oportunidade passar…

    beijos,
    Dé…

  4. Léia disse:

    Fiquei com muita vontade de ler o livro…deixa a grana aparecer pra tú ver…rs

    Beijos
    Léia

  5. Lili disse:

    Esse escapou entre meus dedos rsrs
    Mas, não irá faltar oportunidade de lê-lo, ainda mais agora com o seu comentario.

    Bjs Vivi!!
    Lili

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